Cuba: Turismo e Laboratório Social / Cuba: Tourism and Social Experiment

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Dentro de um almendrón em Havana. / Inside of an almondrón in Havana. By Ligia Coelho

 

Cuba: Turismo e Laboratório Social / Click Here for English

Cuba é um dos poucos destinos turísticos onde cada visitante se torna um juiz da história. É praticamente impossível evitar comparações entre comunismo e capitalismo, a não ser que o turista superficial queira apenas se bronzear em Varadero – evitando assim qualquer tipo de análise socioeconômica sobre esse destino tão diferente de outros roteiros turísticos e históricos.

Como em todos os países, há aspectos positivos e negativos. Cada um reflete sua experiência subjetiva pessoal sobre o que vivencia.

Lemos no jornal oficial do partido dos trabalhadores de Cuba do dia 26 de dezembro de 2016 que, apesar do turismo ser a segunda maior atividade econômica do país, o salário médio (SM) dos trabalhadores em turismo ainda é comparativamente menor que o de outros trabalhadores no país. O artigo não fala uma palavra sobre gorjetas em moeda forte (dólar) deixadas pelos turistas. Como turistas ocasionais, tendo conhecido Bahamas, Bali, Cancun, Hammamet (Tunísia), Maldivas, Maurício, Phukhet (Tailândia), entre outros, achamos que Cuba ainda precisa melhorar muito em qualidade e eficiência para ser competitiva em termos turísticos. O primeiro passo seria reconhecer que há problemas, mas a retórica oficial parece ter critérios soberanos próprios para expor ao mundo suas dificuldades – a não aquelas supostamente causadas pelo bloqueio norte-americano.

Quando nos perguntam se gostamos de Cancun ou da Tunísia, a pergunta tem seu nível de superficialidade turística. Quando nos perguntam se gostamos de Cuba, é como se nos perguntassem se somos de direita ou de esquerda, em que quadrante do espectro político situamos nossa ideologia, como julgamos um país comunista e anti-imperialista ou como funciona na prática, em pleno século XXI, um processo revolucionário iniciado há quase seis décadas.

Não viajamos para criticar países e tampouco temos a pretensão de julgar a história.

O papel de um escritor ou de um jornalista é o de revirar um animal pelo avesso e mostrar suas entranhas em detalhe. Não temos aqui essa ambição. Mas temos algumas histórias pitorescas que ilustram nossos instantes em Cuba.

Um simpático taxista chamado Fidel dirigindo um Moskvitch de 1984 caindo aos pedaços. Criticou energicamente o capitalismo declarando orgulhosamente Cuba com país comunista e anti-imperialista. Não soube explicar se há alguma diferença entre comunismo e socialismo em Cuba. Fazíamos um percurso de uns 12 km entre o centro de Trinidad e nosso hotel no litoral. Antes de sairmos do centro da cidade, ouvimos um barulho alto. Fidel parou o carro, levantou o capô, pegou uma foice e um martelo no porta-malas, deu algumas pancadas fortes e estratégicas em alguma parte do motor. Explicou que havia uma parte do sistema que funcionava na hora errada e precisava desativá-lo.

Um outro taxista simpático, Alfredo, disse que trocou um almendrón Chevrolet 1955 custando US$ 55,000 por um Peugeot 1992 que custou US$ 36,000. Eu disse que poderia comprar um carro novo 2016 no Brasil por US$ 20,000 e perguntei porque não permitiam a importação. Alfredo explicou que tem uma irmã morando em Miami mas ela não poderia lhe enviar um carro e justificou dizendo ser uma política do governo para não aumentar a frota e o consumo de combustível. Um outro cubano, em Havana, nos deu uma explicação mais sucinta: comando e controle. Ele ganha US$ 52 por mês como advogado, mas prefere trabalhar com turismo, como motorista.

A seguir: mais histórias de Cuba.

Jonas in front of almendróns parked in central Havana. / Jonas em frente a almendróns estacionados em Havana central.
By Ligia Coelho
By Ligia Coelho
Dentro de um almendrón – taxi coletivo – em Havana. / Inside of an almendrón – collective taxi – in Havana. By Ligia Coelho
By Jonas Rabinovitch

 

Cuba:  Tourism and Social Experiment

Cuba is one of the few tourist destinations where every visitor becomes a judge of history. It is practically impossible to avoid comparisons between communism and capitalism, unless the shallow tourist wants only to sunbathe in Varadero – thus avoiding any kind of socioeconomic analysis of this destination, which is so different from other tourist sites.

As in all countries, there are both positive and negative aspects. Each traveler reflects their own personal subjective view of what they experience.

We read in the official newspaper of the Cuban Workers’ Party on December 26, 2016 that, although tourism is the second largest economic activity in the country, the average salary (SM) of tourism workers is still comparatively lower than that of other jobs in the country. The article did not say a word about tips in hard currency left by tourists. As occasional tourists, having known Bahamas, Bali, Cancun, Hammamet (Tunisia), Maldives, Mauritius, Phukhet (Thailand), among others, we think that Cuba still needs to improve a lot in both quality and efficiency to become a competitive tourist destination.

The first step would be to recognize that there are problems, but official rhetoric seems to have sovereign criteria of its own to expose to the world its difficulties – except those supposedly caused by the US blockade.

When people ask us if we liked Cancun or Tunisia, the question has its level of touristic superficiality. When asked if we liked Cuba, it is as if people were asking whether we are right wing or left wing, or as if they wanted to know in which quadrant of the political spectrum we situate our ideology. It seems that people really want to know our views on how a communist and anti-imperialist country works in practice or our inquire about your views on a revolutionary process that began almost six decades ago.

We do not travel to criticize countries, nor do we pretend to judge history.

The role of a writer or a journalist is to turn an animal inside out and show its insides in detail. We do not have that ambition here. But we do have some picturesque stories that illustrate our moments in Cuba.

A nice taxi driver named Fidel driving a 1984 Moskvitch which was falling apart. He vigorously criticized capitalism by proudly declaring Cuba a communist and anti-imperialist country. He could not explain if there is any difference between communism and socialism in Cuba. Fidel was taking us on a journey of about 12 km between the center of Trinidad and our hotel on the coast. Before we left the city center, we heard loud noises. Fidel stopped the car, lifted the hood, took a sickle and a hammer from the trunk, struck some strong and strategic blows somewhere in the engine. He explained that there was a part of the engine that worked at the wrong time and he needed to deactivate it.

Another nice taxi driver, Alfredo, said he traded a 1955 Chevrolet Almendrón worth $ 20,000 for a 1992 Peugeot that cost $ 36,000. I said I could buy a new car 2016 in Brazil for $ 20,000 and I asked why they could not import it. Alfredo explained that he has a sister living in Miami but she would not be allowed to send him a car. He added that there was a government policy not to increase fleet and fuel consumption. Another Cuban in Havana gave us a more succinct explanation: command and control. He earns $ 52 a month as a lawyer, but prefers to work with tourism as a driver.

In the next blog: more stories from Cuba.

 

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