Investindo no Próprio Talento / Investing in His Own Talent

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Investindo no Próprio Talento / Click Here for English

O que você faria se tivesse tanto dinheiro a ponto de não saber o que fazer com ele? Muitos milionários fazem coisas estranhas, como comprar produtos supérfluos para inflar o ego e sentir-se bem causando inveja nos outros.  Outros abraçam a filantropia criando fundações para promover causas importantes nas quais acreditam.

O arquiteto Philip Johnson resolveu investir na promoção de seu próprio talento.  A “Casa de Vidro“ em New Canaan é talvez a melhor manifestação desse princípio.  Philip Johnson ficou milionário com vinte e um anos, quando herdou do pai um polpudo lote de ações da ALCOA – exploração de bauxita para fazer alumínio.

The Glass House (view from the Parking lot). By: Ligia Coelho
The Glass House (view from the Parking lot). By: Ligia Coelho

Philip Johnson trabalhava como coordenador do setor de arquitetura (mesmo não sendo arquiteto) do Museu de Arte Moderna de Nova York – MOMA – sem receber salário, porque não precisava.  Com isso, viajou e conheceu muitos arquitetos, inclusive Mies van der Rohe, por quem foi influenciado.  A Casa de Vidro foi construída em 1949 e representa “um ensaio de estrutura mínima, geometria, proporção, e os efeitos da transparência e reflexão”.

É interessante como a cultura influência a arquitetura.  Nos países muçulmanos, onde a cultura valoriza a modéstia e a discrição, foi criado o muxarabi, uma espécie de treliça de madeira muito detalhada permitindo que os habitantes de uma casa vejam o exterior sem serem vistos de fora.  Em Volendam, na Holanda, acontece o contrário: as casas possuem amplas vidraças e cortinas de bordado quase transparente.  Quem passa pela rua pode ver todo o interior das casas.  Nesse caso, o princípio calvinista que cada lar não tem nada a esconder é o que prevalece.  Na casa de vidro de Philip Johnson, como o próprio nome diz, a transparência parece ser pura demonstração de tecnologia e talento apenas para fazer algo que chame a atenção.  A casa acabou entrando como exemplo obrigatório nos livros de arquitetura modernista desde então.

A sala de estar da Casa de Vidro. / The living room at the Glass House. By: Ligia Coelho
A sala de estar da Casa de Vidro. / The living room at the Glass House. By: Ligia Coelho

Como os arquitetos adoram criticar o trabalho de outros arquitetos, achamos importante fazer algumas revelações de ordem prática.

1) Não há casas com telhados planos em New Canaan, Connecticut, porque neva todo inverno. A guia nos confessou que a Casa de Vidro sempre teve problemas de infiltração.  O teto é plano, acumula neve, a neve derrete e a água se infiltra pelo teto que está cheio de bolhas e manchas.

2) O aquecimento é feito com os canos de água quente que passam pelo chão.  Os antigos romanos já tinham inventado esse princípio em suas saunas, chamado hipocausto.

3) Incontáveis pássaros já morreram de forma cruel porque se chocam com as paredes de vidro da casa, em pleno voo. Perguntamos sobre a possibilidade de usarem aqueles adesivos em forma de pássaros sobre o vidro, como usamos aqui em casa, mas eles nem cogitam profanar o desenho da casa com pequenos adesivos.

4) Há cozinha e um fogão elétrico na Casa de Vidro, mas não há exaustor nem chaminé.  A única parte opaca da casa acomoda a lareira e o banheiro.  Ou seja, não é possível cozinhar de maneira séria na cozinha.  Philip Johnson tinha cozinheira e mordomo, seu beef bourguignon era preparado na casa de entrada, antiga casa da fazenda, onde moravam os empregados.

Cozinha na Casa de Vidro. A pia e o fogão ficavam escondidos debaixo de um balcão de madeira, que virava bar quando Philip recebia amigos. / The kitchen at the Glass House. The sink and the stove your hidden below the wood structure which would be turned into a bar when Philip was holding a party. By: Ligia Coelho
Cozinha na Casa de Vidro. A pia e o fogão ficavam escondidos atrás de um balcão de madeira, que virava bar quando o arquiteto recebia amigos. / The kitchen at the Glass House. The sink and the stove were hidden behind a wood stand which would become a bar when the architect hosted friends.. By: Ligia Coelho
Right between the kitchen and the dinning area at the Glass House. By: Jonas Rabinovitch
Right between the kitchen and the dinning area at the Glass House. By: Jonas Rabinovitch

5) Não há cortinas na casa de vidro, ou seja, imaginamos que o arquiteto acordava nos fins de semana muito cedo com a luz do dia.  E ele passava principalmente os fins de semana por lá.

6) A casa de vidro fica longe da rua principal, nos fundos de um terreno com vista para uma pequena ravina e um lago. Philip Johnson mandou aumentar a altura do muro de pedra na frente da casa para impedir a visão de curiosos.

7) Na casa de vidro não há estantes, livros, televisão, prateleiras na cozinha, mesa de trabalho, gatos, nada que faça uma casa parecer um lar.  É apenas um show room social em escala real, complementada pela casa de tijolos que fica a uns 20 metros de distância.  Essa tinha estantes, livros, poltronas, aconchego, privacidade e outras coisas que a maioria das pessoas gosta de ter em suas casas.

Mas a idéia deu certo.  Depois da publicidade de seu “show room” transparente, seu talento e seus contatos, Philip Johnson foi comissionado para fazer vários projetos.

Ficamos confusos sobre os limites entre a arquitetura e o marketing da arquitetura.  Ninguém pode se sentir bem criticando um marco da arquitetura modernista, exemplo máximo da criatividade e talento de um grande arquiteto. Por outro lado, parece que a idéia não pegou porque a maioria das pessoas não tem dinheiro para fazer casas de vidro.  A maioria também parece se sentir bem vivendo com estantes, livros, gatos, televisão, fogão e chaminé (ou exaustor), poltronas confortáveis, aconchego e privacidade.

The Glass House (front). By: Ligia Coelho
The Glass House (front). By: Ligia Coelho
The dinning room. / Sala de jantar. By: Ligia Coelho
The dinning room. / Sala de jantar. By: Ligia Coelho
Ligia & Jonas ao lado da estatua trazida da Polonia - encontrada na casa de uma familia vitima do nazismo. / Statue brought from Poland - saved from the house of a family killed by Nazis.
Ligia & Jonas ao lado da estatua trazida da Polonia – encontrada na casa de uma familia vitima do nazismo. / Statue brought from Poland – saved from the house of a family killed by Nazis.
View from the bedroom at the Glass House. / Vista do quarto na Casa de Vidro. By: Ligia Coelho
View from the bedroom at the Glass House. / Vista do quarto na Casa de Vidro. By: Ligia Coelho

Investing in His Own Talent

What would you do if you had so much money to the point of not knowing what to do with it? Many millionaires do strange things, like buying luxury goods to inflate their ego and feeling good by causing envy in others.  On the other hand, some embrace philanthropy by creating foundations to promote important causes in which they believe.

The architect Philip Johnson (1906-2005) decided to invest in promoting his own talent. The “Glass House” is perhaps the best manifestation of this principle. Philip Johnson became a millionaire in his twenties, when he inherited from his father a fat lot of ALCOA shares – bauxite exploration to make aluminium.

The Glass House (back). By: Ligia Coelho
The Glass House (back). By: Ligia Coelho

He worked as coordinator of the Museum of Modern Art’s architecture department  in New York without pay, because he did not need it.  With this, he travelled and met many famous architects, including Mies van der Rohe, who influenced him. The Glass House was built in 1949 and could be defined as minimalist expressionism, including “structure, geometry, proportion and the effects of transparency and reflection.”

It is interesting to see how culture influences architecture. In Muslim countries, where the culture values modesty and discretion, the Muxarabi was created – a kind of very detailed wooden lattice allowing people at home to see the outside without being seen. In Volendam, the Netherlands, the opposite happens: the houses have large glass windows and curtains of transparent embroidery. Those who walk on the street can see the entire interior of the houses. In this case, the Calvinist principle that every home has nothing to hide is what prevails.

In Philip Johnson’s glass house, as the name implies, transparency appears to be a pure demonstration of technology and talent making the point of catching attention. The house became a sort of mandatory example in several books of modernist architecture ever since.

The living room at the Glass House. / Sala de estar na Casa de Vidro. By: Ligia Coelho
The living room at the Glass House. / Sala de estar na Casa de Vidro. By: Ligia Coelho
Jonas inside the Glass House. By: Ligia Coelho
Jonas inside the Glass House. By: Ligia Coelho

As architects love to criticize the work of other architects, we think it is important to make a few practical revelations.

1) There are NO houses with flat roofs in New Canaan, Connecticut, because it snows every winter. The guide confessed to us that the Glass House has always had water infiltration problems. The roof is flat, it accumulated snow, the snow melts and the water seeps through the walls.  The heating is done with hot water pipes that pass under the floor. The ancient Romans had invented this principle in their saunas, called hypocaust.

2) Countless birds have died inhumanely because they collide with the glass walls of the house in full flight. We asked about the possibility of using those stickers in the form of birds on the glass, such as the ones we have in our home (we even offered to buy them), but they do not cogitate desecrating the design of the house with stickers.

3) There is a kitchen and an electric stove in the glass house, but there is no hood or chimney. The only opaque parts of the house are the fireplace and bathroom.  This means you cannot really cook in a serious way in the kitchen. Philip Johnson had a cook and butler, his beef bourguignon was prepared in the old farm house at the entrance where the employees lived.

4) There are no curtains in the glass house, so we imagine that the architect would wake up very early with the daylight – he stayed there mostly on weekends.

The bedroom at the Glass House. / O quarto na Casa de Vidro. By: Ligia Coelho

5) The glass house is away from the main street, situated at the back part of a large plot of land overlooking a small ravine and a lake.  Philip Johnson ordered the height of the stone wall in front of the house increased to prevent the sight of onlookers.

6) The glass house has no shelves, books, television, entertainment, desks, cats, anything that would make a house look like a home. It’s just a social show room in full scale, complemented by the brick house which is about 20 meters away. This one had bookshelves, books, chairs, warmth, privacy and other things that most people like to have in their homes.

But the idea worked. After advertising his transparent “showroom”, following his talent and his contacts, Philip Johnson was commissioned to do several projects.

We are always confused about the boundaries between architecture and the marketing of architecture.  No one can feel good criticizing an icon of modernist architecture, the top example illustrating the creativity and talent of a great architect.

On the other hand, it seems that the idea did not really catch on, because most people do not have money to build glass houses. It also seems that most people feel good living with bookshelves, books, cats, walls, television, stove and chimney (or exhaust), comfortable seating, warmth and privacy.

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