Lições de Quem Mora Fora do Brasil

 

Lições de Quem Mora Fora do Brasil / Click Here for English

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Manhattan, New York

Quando a gente mora fora do Brasil, é muito comum perguntarem: “E aí? Onde é melhor, no Brasil ou nos EUA?” A verdade é que qualquer lugar tem vantagens e desvantagens. Respostas muito certinhas certamente se baseiam em generalizações, estereótipos e experiências isoladas. Qualquer frase que comece dizendo “o americano é assim “, ou “o brasileiro é assado” pode estar errada.

Mas, depois de mais de vinte anos morando fora do Brasil, aprendemos algumas lições que mostram um panorama comparativo entre duas realidades bem diferentes. Veja bem, isso reflete a NOSSA experiência. É possível que outras pessoas tenham experiências e visões totalmente diferentes, claro.

A primeira lição é que a gente aprende a gostar do Brasil. Isso não tem nada a ver com nacionalidade ou patriotismo, nem mesmo com o Brasil. Isso é da natureza humana. As pessoas apreciam mais o que elas realmente tem quando deixam de tê-lo. A grama do vizinho é sempre mais verde, como dizem aqui nos EUA. Só aprendemos a valorizar a brisa do verão, um dia na praia, um pão de queijo, o calor e a espontaneidade das pessoas, o mate, a saudade, o almoço em família aos domingos, e outras coisas tão brasileiras depois que essas coisas ficam lá longe.

A segunda lição é que nos EUA a maioria das coisas quase sempre funcionam como devem funcionar. Se há uma lei proibindo longas filas em bancos, não há longas filas nos bancos. Se há uma lei que defende os direitos do consumidor, então as lojas cumprem esse direito. Por exemplo, podemos comprar um liquidificador numa loja e devolve-lo alguns meses depois porque não ficamos satisfeitos. A loja sabe que ao aceitar a devolução da mercadoria vai estabelecer uma relação de confiança com o cliente. Ou seja, terceira lição: aquele espírito de “se dar bem” ou “levar vantagem” existe muito menos em Nova York do que no Brasil. As pessoas em geral são mais maduras nos seus relacionamentos com as outras pessoas e com as instituições.

Como quarta lição, a contrapartida disso é que o “jeitinho” quase não existe. Por exemplo, existe uma lei que proíbe as lojas de bebidas de abrirem as bebidas para seus clientes. Para fazer isso, eles precisariam de uma licença para funcionar como bar, uma licença cara e difícil de obter. Um dia compramos duas garrafinhas de cerveja para tomar no trem. A moça da loja educadamente se recusou a abrir as garrafinhas para nós, explicando que isso seria contra lei. Olhem só: e nós estávamos na Grand Central a menos de 30 metros do trem! Poderíamos ter colocado a garrafinha com a chapinha aberta dentro de um saco de papel, mas ela se recusou. Ela disse que eles poderiam nos vender um abridor de garrafas que custaria $1 dólar e que faziam isso para conveniência dos clientes. Ou seja, poderíamos comprar um pequeno abridor de garrafas para abrirmos as garrafas fora da loja – aí então isso seria legal.

A quinta lição é que a polícia e a lei funcionam. Ou, pelo menos, funcionam melhor que no Brasil. Temos um exemplo negativo e um positivo.

Trabalhamos como voluntários em uma ONG sem fins lucrativos que ajuda na adoção de cachorros. Fomos multados por passear com um cachorro que não era nosso, em um parque perto de casa onde não se permite cachorros. Claro, havia uma placa dizendo isso e não tínhamos visto. Tivemos que nos apresentar ao Juiz e juramos que não tínhamos visto a placa (o que era verdade), mas não escapamos da multa de 50 dólares. O juiz ainda queria nos obrigar a pagar uma licença para passear com o cachorro, mas conseguimos provar que o cachorro não era nosso.

Por outro lado, quando estávamos viajando e um motorista bêbado bateu e acabou com o nosso carro bem em frente da casa, tivemos toda a cobertura do seguro, o apoio da polícia e uma indenização justa que nos permitiu comprar outro carro – sem nem termos visto o sujeito que bateu no nosso carro. Por sinal, estávamos no Brasil quando isso aconteceu. Os vizinhos testemunharam o acidente e chamaram a polícia. Dez dias depois, quando voltamos pra casa, com o relatório da polícia conseguimos resolver tudo.

Nos EUA vivemos numa casa que não tem cerca, nem muro. O carteiro deixa as encomendas do lado de fora da porta e elas nunca foram roubadas. Por outro lado, as pessoas são emocionalmente mais distantes e, no fundo, sempre estaremos longe de casa. Sabemos que estamos vivendo em um país que não é nosso.

Nossos vizinhos são pessoas muito boas e muito simples. Não são ricos, vivemos em uma típica área de classe média. Eles falam do tempo, do inverno ameno, de esportes e de notícias do dia a dia, como qualquer vizinho. Fazem compras no COSTCO, onde uma família com renda média pode fazer compras a atacado e poupar um bom dinheiro.

Se houver uma emergência, uma chamada para o número 911 convoca um carro da polícia, ambulância ou bombeiros em menos de um minuto.

Não sei se é melhor viver em um país sem improviso, sem jeitinho e com menos calor humano. Mas percebemos que há uma relação direta entre o comportamento individual, o comportamento das instituições e o comportamento social como um todo.

Tomamos muito cuidado para evitar generalizações. Tom Jobim resumiu muito bem: nos EUA tudo é muito bom…mas é uma merda. No Brasil, tudo é uma merda…. Ah! mas é muito bom…

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This is Sully, the dog from the NGO.  / Esse é o Sully, o cachorro que estava para adoção.

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Nosso carro depois da batida.  / Our car after the crash, while we were traveling.

Impressions from Brazilians Living in New York

We live outside Brazil, so it is very common for Brazilians to ask: “So? Which one is better, Brazil or the US?” The truth is that any place has advantages and disadvantages. Usually all answers are based on generalizations, stereotypes and isolated experiences. Sentences that begin by saying “the US is this” or ” Brazil is that” would be wrong.

After more than 20 years living in the US, we learned a few things about two very different realities. This reflects our experience. It is possible that other people may have totally different views, of course.

First of all, we learned to appreciate Brazil. This has nothing to do with nationality or patriotism. This is about human nature. People tend to appreciate more what they had when they cease to have it.  The neighbors’ grass is always greener, as they say here in the US. In Brazil we took for granted the summer breeze, a day at the beach, a cheese bread, the warmth and spontaneity of the people, the family lunch on Sundays, and other typical Brazilian things which are now far far away.

On the other hand, in the US, the majority of things work as they should. If there is a law prohibiting long waiting lines in banks, there will be NO long waiting lines at banks. If there is a law that defends consumer rights, then stores fulfill this right. For example, we can buy a blender in a store and return it a few months later because we were not satisfied. The store knows that if they accept the merchandise back they will establish a relationship of trust with the customer. Third, the spirit of “taking advantage” in everything, so common in Brazil, does not exist in the US. There is an impression that people in general are more mature in their relationships with others and with businesses.

Fourth, the “Brazilian way” of taking advantage in everything practically does not exist. For example, there is a law prohibiting liquor stores from opening drinks for customers. They would need a special license as a bar to open drinks for customers, an expensive  and difficult license to obtain. One day we bought two bottles of beer to take into the train. The attendant politely refused to open the bottles for us, explaining that this would be against the law. By the way, we were at the Grand Central Terminal, just 30 meters away from the train! We could have put the opened bottles inside of a paper bag, but she refused. She said they could sell us a bottle opener that would cost $ 1.00 for customer convenience. Therefore, opening up the bottles outside the store would be legal, as all New Yorkers know.

Fifth, the police and the law do work well. Or at least they do work much better than in Brazil. We have two good examples about it – a negative and a positive one.

We work as volunteers in an NGO that helps with the adoption of pets. We received a fine for walking a dog that wasn’t ours in a park near our house where dogs are not allowed. Of course, there was a sign saying that. We had to go to Court and we swore that we had not seen the sign (which was true), but we did have to pay a $50 fine. The judge also ordered us to get a license to walk the dog, but we managed to prove that the dog wasn’t ours.

On the other hand, there was the occasion when we were traveling and a drunk driver hit and destroyed our car right in front of the house. Thanks to the police, we received a fair compensation from the insurance that allowed us to buy another car – without even having seen the guy who hit our car. By the way, we were in Brazil when it happened. Neighbors witnessed the accident and called the police. Ten days later, when we returned home we could use the police report to have the case resolved.

In the United States we live in a house that has no fence or walls. We shop online, and the orders are left outside of our door.  They were never stolen. On the other hand, people are somehow less affectionate than in Brazil and we know we’re away from home.

Our neighbors are very nice and good people. They are not rich, we live in a typical middle-class area. They talk about the weather, the mild winter, sports and daily news, like all neighbors. They shop at COSTCO, where a family with an average income can shop at wholesale values and save a good deal of money.

If there is an emergency, a call to the 911 number is taken very seriously. A police car, ambulance or fire truck appears in less than a minute.

I do not know if it’s better to live in a country with no improvisation and with winter.  But we realize that there is a direct relationship between individual behavior, the behavior of institutions and social behavior as a whole.

We take great care to avoid generalizations. Tom Jobim summed it up well: in the US it is very good … but it sucks. In Brazil, everything sucks…. Ah! but it is very good …

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2 Comments Add yours

  1. Sandra Cutrim says:

    Excelente!!!! Tenho a mesma visão… Mas dou graças a Deus todos os dias pelo privilégio de morar aqui. Saúde e sucesso, amiga.

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    1. Instant says:

      Obrigada querida. Adorei receber sua mensagem!

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