Noiva do Cordeiro / The “Bride of the Lamb”

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Noiva do Cordeiro / Click Here for English

Vimos na internet um tabloide inglês dizendo que no interior do Brasil há um vilarejo com mulheres lindas procurando homens. A gente pensou: “isso não pode ser verdade!”. Resolvemos conferir.

Noiva do Cordeiro é tudo no meio do nada. Uma pequena vila com pouco mais de 200 habitantes no interior de Minas Gerais, estradas de terra, morros e plantações, uma passarada como nunca ouvimos antes saudando o sol todas as manhãs. Poderia ser um lugar igual a tantos outros que existem no interior do Brasil e no interior de outros países. A diferença, como sempre, é feita por sua gente e por sua história.

Tudo começou com uma linda história de amor. Era 1876. A vida era uma prisão social: antes do casamento as mocinhas pertenciam aos pais, depois ao esposo. Como toda mocinha casadoira, Maria Senhorinha de Lima ficou feliz da vida quando seu pai acertou o casamento dela com um barão francês. Dizem alguns que o barão Arthur Pierre aparentemente era gay, preferia homens. Dizem outros que era um tanto violento, ranzinza e pouco romântico. O fato é que o coração inquieto de Senhorinha ficou borboleteando.

Isso faz parte do mistério: ninguém nunca soube exatamente como pousa um coração apaixonado. O fato é que Senhorinha, talvez sem saber como, pouco a pouco, furtivamente, borboletivamente se entregou borbulhante aos braços fortes de Chico Fernandes.

Naquela época uma mulher não podia ter divórcio nem vontades. Como a Senhorinha engravidou do amante, ela e Chico acabaram fugindo de Belo Vale e foram parar num vale ali perto. As pessoas eram menos mimadas, sabiam construir suas casas, plantar feijão e arroz, criar porcos e galinhas.

O diabo é que o padre Jacinto não aceitou aquela independência toda e excomungou Senhorinha e seus descendentes até a quarta geração. Sem igreja, uma boa alma pode transformar o corpo em templo. Mas viver longe da vila, longe do mercado e das gentes foi muito difícil.

Senhorinha e Chico tiveram que vender o que produziam bem mais longe. Cada vez mais perto um do outro, tiveram onze filhos. Feito Adão e Eva ao contrário, traçaram com o suor do rosto a entrada no paraíso.

Algumas gerações depois, o paraíso virou Noiva do Cordeiro. Noiva do Cordeiro virou paraíso.

Chegamos lá sem entender nada do que estava acontecendo. Uma casa grande com vários quartos (onde moram 80 pessoas), outras casas ao lado, uma grande área comum com várias mesas, uma cozinha com fogão a lenha ao fundo, crianças brincando e correndo por todos os lados. Aquilo parecia um sonho, a vida em comunidade e tudo tão harmonioso.

Gostamos. A imagem de crianças brincando por todos os lados é um ícone planetário de paz. Pensem nisso: se vocês chegam a qualquer lugar e encontram crianças brincando, é como se Deus estivesse dizendo “aqui há paz”. Talvez seja por isso que os professores continuem trabalhando com salários tão baixos…

Tínhamos telefonado antes e mandado e-mail marcando a visita. Rosa nos esperava e nos recebeu com muito carinho. Já foi logo nos servindo um almoço que era um verdadeiro banquete com pratos deliciosamente preparados no fogão a lenha e com alimentos plantados e colhidos por eles mesmos. Mesmo assim, percebemos que tudo foi muito espontâneo.

Poucas coisas na vida são mais significativas do que sentar à mesa para uma refeição e conhecer pessoas. Esse é outro ícone planetário, o qual adoramos. O verdadeiro alimento vinha daquela conversa tranquila. O prato, a mesa e Rosa contava a história de Noiva do Cordeiro, brincadeiras e algazarra de paz em volta.

O pai da Rosa tinha fundado uma religião. O pastor Anísio Pereira, longe de Belo Monte e das igrejas tradicionais, sonhava perpetuar seus próprios dogmas com seus nove filhos. O cordeiro é Cristo e a religião sua noiva. Só que esse tipo de religião não deu muito certo. Com regras muito rígidas, as mulheres não podiam cortar o cabelo ou usar maquiagem, ninguém podia ouvir música ou ver televisão. Na história da humanidade alguns sempre tentaram impor o espírito religioso através de obrigações e proibições. Isso trouxe disciplina aos grupos primitivos, consolidou hierarquias e harmonia social. Os antropólogos entendem.

Em espontânea harmonia, almoçávamos em um templo com barulho de paz, como se estivéssemos rezando. Caso vocês não saibam, rezar é apenas isso: convocar aqui dentro o que temos de melhor e ofertar ao mundo. Alguns ainda se enganam e rezam apenas para conseguir coisas. Mas parece que Deus prefere espontaneidade que rigidez; e certamente prefere ações concretas do que palavras vazias. Nós ficamos pensando o que havíamos perdido na história da humanidade com tanto progresso.

Durante o dia visitamos a horta, a escola, a velha casa onde o casal Senhorinha e Chico moraram, vimos o riacho, e o lugar onde se faz o queijo e o doce.

`A noite, uma surpresa, percebemos que as pessoas se vestiam de branco e se preparavam para alguma coisa especial. As mulheres colocavam maquiagem, as crianças e os homens se penteavam e vestiam suas melhores roupas. Eles preparavam um show no galpão, onde havia um palco. Nos sentamos no meio da audiência. Só então percebemos que o show era para nós. O coral com as moças e as crianças, a dupla Marcia e Maciel, entre outras atrações. Depois, a atração principal: entrando com cortina de fumaça e luzes especiais, um grupo de uns dez rapazes e moças vestidos com roupas de couro trouxeram um caixão até o palco. De dentro saiu Keila, cover de Lady Gaga, exuberante e vaporosa. Uma produção sofisticadíssima.

No dia seguinte acordamos as 5 da manhã, tomamos café com o grupo e fomos para o campo. Eles estavam capinando e colhendo pimentões. Keila Gaga dirigia o trator. Todos, rapazes e moças, trabalhavam duro, ganhando o pimentão de cada dia com o suor do rosto. E assim passamos o dia, viajando no mesmo lugar até o mais profundo das almas humanas. O sal, o céu, o sol e a terra.

Na despedida, todos cantaram a música que eles sempre cantam para se despedir das visitas. É claro que nos emocionamos.

Descobrimos que uma das moças havia dito ao repórter inglês que gostaria de se casar. As casadas esperam durante a semana pelos maridos que trabalham em Belo Horizonte, a 100 Km. O mito e a mentira foram desmitificados.

Não encontramos nenhuma torre Eiffel, nenhuma ponte sobre o Támisa, nenhuma loja sofisticada, nenhum espírito comercial.

Por outro lado, encontrar gente especial e fazer amigos em um lugar especial ainda é a melhor atração do planeta.

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Coral / Chorus 

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Os dois lados de Keila Gaga: cantando e trabalhando na roça.  / The two sides of Keila Gaga: singing and working in the fields. 

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O trabalho é amor feito visível.  / Work is love made visible (Gibran). 

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A despedida. /  The farewell. 

The Bride of the Lamb

A British tabloid wrote about a village in the countryside in Brazil: according to them, this village had beautiful women looking for men. We thought, “this can’t be true.” So, we decided to check it out.

Noiva do Cordeiro, which means “bride of the lamb” is in the middle of nowhere. A small village with approximately 200 inhabitants in the interior of Minas Gerais, a Brazilian state. Dirt roads, rolling hills, fields and green pastures, lots of birds saluting the sun every morning. It could be a place like many others in the Brazilian countryside. As always, its people and its history make all the difference.

It all started with a beautiful love story. It was 1876. Life was a social prison: before marriage women belonged to their parents; after marriage, to their husbands. Like all young ladies, Ms. Maria Senhorinha Lima was happy when her father agreed on her marriage with a French baron. Some say that Arthur Pierre Baron preferred men. Others say he was violent and unromantic. The fact is that the restless heart of Senhorinha was not at peace.

This is part of the mystery: no one knows exactly how a passionate heart lands. Senhorinha, perhaps without knowing how, little by little, surrendered to the strong arms of Mr. Chico Fernandes. A passionate and forbidden love affair began.

At that time a woman could not divorce her husband. They could not express free will. Senhorinha got pregnant from her lover and they had to run away from Belo Vale and ended up in a nearby place. At that time people were less spoiled, they knew how to build houses, they planted beans and rice, raised pigs and chickens.

The worst was yet to come, as the local priest – father Jacinto – didn’t accept all that independence and excommunicated the couple and their descendants to the fourth generation. Without a church, a good soul can transform their body into a temple. But living far from the village, away from the market and the people was very difficult. Nobody could survive without a community.

The couple had to sell whatever they produced much further away. They had 11 children. They plotted with the droplets of sweat in heir faces the gateway to paradise. A few generations later, the paradise became Noiva do Cordeiro.

We got there without knowing what was going to happen. We saw a large house with several rooms (where 80 people live together), and other houses next to it. There was a large common area with several tables, a kitchen with a wood stove. We saw children playing and running everywhere. It felt like some sort of noisy dream, life in community and a harmonious feeling.

We planned our visit, we called and we exchanged email messages before going. Rosa – Senhorinha’s granddaughter – was waiting for us and welcomed us with great affection. As soon as we arrived, they served us lunch, which was a simple feast with delicious dishes prepared with vegetables planted and harvested by themselves.

Few things in life are more meaningful than to seat around a table for a meal while meeting people. We loved it.

Rosa’s father founded a religion. Mr. Anísio Pereira, living far from Belo Monte and from any traditional church, decided to perpetuate his own dogmas having his nine children as followers. He called his religion “Bride of the Lamb”. The lamb is Christ and his religion would be the bride. The problem is that eventually this religion did not really work. It had very strict rules: women could not have their hair cut and could not wear makeup; they could not listen to music or watch TV. History is full of examples showing that spirituality is usually introduced through obligations and prohibitions. This approach brought discipline to primitive groups, consolidated hierarchies and promoted social harmony. Anthropologists understand.

In spontaneous harmony, we had lunch in a noisy temple which sounded of peace, as if we were praying. Prayer is just that: offering the best of us to the world. Some still pray just to obtain things and benefits. But it seems that God prefers spontaneity than rigidity; and certainly prefers concrete actions than empty words. We were also wondering what we had lost in the history of mankind with so much progress.

During the day we visited the gardens, the school, the old house where the original settlers lived, and the place where they make cheese and fruit preserves.

At night, we were caught by surprise when we realized that people were dressed in white and preparing for something special. Women wore make-up, children and men combed their hair and were wearing their best clothes. They presented a show. We sat in the audience and only then we realized that the show was for us. There was a presentation by a choral with women and children, then the duo Marcia & Maciel, among other attractions. The main attraction was yet to come: entering the stage with theatrical smoke and special lights, a group of about ten young men and women dressed in leather clothes brought a coffin to the stage. Inside the coffin was Keila Gaga, cover of Lady Gaga, who came out singing. The production was very sophisticated for such a small village.

The next day we woke up at 5A.M., had breakfast with them and went to the fields. They were weeding and harvesting peppers. Keila Gaga was driving the tractor. All men and women worked very hard. And so we spent the entire day observing their routine.

When departing, they all sang the typical song they always sing in farewells. Of course, we felt very touched. It was hard to believe, and hard to leave.

We found out that one of the young women had told an English reporter that she would like to get married. This was enough to generate the malicious and exaggerated tabloid headline that all women there were looking for men. Actually, most women are married with insiders, they are mostly cousins. Husbands leave the village to work in the big city of Belo Horizonte, some 100 km away. The myth was demystified.

We found no Eiffel Tower, no bridge over the Thames, no sophisticated shop, no commercial spirit.

On the other hand, we found out that meeting special people and making new friends in a special place is still the best attraction in the planet.

 

 

 

 

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